
O desafio da educação no Brasil
Publicado em 25-julho-2004
“Educação e pesquisa pioram na Alemanha e chineses não perdem a oportunidade” – este é o subtítulo da reportagem “Engenharia Siemens made in China”, publicada no jornal O Estado de São Paulo (19/7/2004) no encarte do The Wall Street Journal Americas. Segundo a reportagem, uma equipe de engenheiros da Siemens na China desenvolveu o primeiro celular da empresa fora da Alemanha. A superioridade alemã na engenharia, com uma tradição de mais de 150 anos, está sendo ameaçada por uma série de problemas recorrentes, onde o mais óbvio são os altos custos trabalhistas. Os chineses ganham um quinto do salário normal de um engenheiro alemão, trabalham até 25 horas a mais por semana e estão provando serem tão bons quanto os alemães. Por essa razão a Siemens anunciou a contratação de 1.000 engenheiros chineses e o investimento de US$1,23 bilhão na China. Para reverter essa tendência o governo alemão anunciou medidas para salvar o segmento de engenharia, porém o esforço está capengando devido ao corte de subsídios federais à pesquisa em função do explosivo déficit alemão. Enquanto isso, a China tem trabalhado agressivamente para melhorar o ensino técnico, tanto para servir à economia, em franco crescimento, como para tornar o país menos dependente de estrangeiros. O resultado é que as universidades chinesas formam 300.000 engenheiros todos os anos – quase dez vezes mais que as alemãs.
Interessante observar que esse fato não ocorre apenas na Alemanha. No relatório “If the underlyng premise for no child left behind is false, how can that act solve our problems?” de abril de 2004, o Ph.D americano David C. Berliner da Universidade do Estado do Arizona apresenta sua forte preocupação com o ensino nos Estados Unidos. Segundo o relatório, o desempenho dos estudantes de ensino médio americano não é satisfatório nos testes internacionais que medem a qualidade do ensino, entre eles o Program for International Student Assessment (PISA). O PISA mostrou que a notas dos estudantes americanos estão na média internacional, no mesmo nível de países como a Alemanha, República Tcheca, Noruega e Hungria. Entretanto, os alunos hispânicos e negros tiveram resultados semelhantes aos países subdesenvolvidos. Isso deve preocupar os Estados Unidos já que a população hispânica e de outras minorias tem taxas de crescimento maiores que as dos brancos. Em 1970, esses grupos, juntos, somente representavam 16 por cento da população. Em 1998 essa participação havia crescido, tendo atingido a marca dos 27 por cento. Se as atuais tendências permanecerem inalteradas, o Escritório de Recenseamento prevê que esses grupos serão responsáveis por quase a metade da população dos Estados Unidos em 2050 (América em Mutação: Indicadores de Bem-Estar Social e Econômico Entre as Raças e a Origem Hispânica)
E o Brasil nesse cenário? Nós tivemos o pior resultado no PISA segundo noticiado em vários jornais em 2001 (http://www.pisa.oecd.org/News/cntry/PISABrazil.pdf). O esforço da nação ainda não é suficiente para colocar o Brasil na competição internacional para atrair investimentos em áreas de tecnologia. Não existe um programa agressivo para fortalecer o ensino técnico, a exemplo que fez a Coréia do Sul, Japão e, mais recentemente, a China. Com a ausência de um programa no presente não conseguiremos nos equiparar as nações desenvolvidas nas próximas décadas. Estamos perdendo mais uma oportunidade de sairmos do berço esplêndido.
A solução para o crescimento do Brasil está na educação. Embora, aparentemente, isso seja óbvio para a maioria das pessoas, pouco se faz para mudar o cenário atual e futuro. Infelizmente, os últimos governos tiveram seu foco no equilíbrio da economia e em ações sociais, ambas buscando soluções de curto prazo. Os investimentos do governo em educação são pequenos comparando com os países desenvolvidos e emergentes. Também, não existem incentivos atraentes para que as empresas possam investir nas universidades. O que se observa é que os últimos governos têm alcançado recordes de arrecadação de tributos, porém pouco se repassa para a educação. Atualmente, os professores das escolas públicas estão mais preocupados em lutar por reajustes salariais do que buscando formas de aperfeiçoar o ensino.
Por outro lado, a sociedade percebe a necessidade de um aperfeiçoamento técnico mais consistente e as pessoas acabam partindo para o ensino particular. Esse aumento de demanda por ensino gera um aumento de oferta. Para atender essa demanda o ensino virou um negócio lucrativo com a proliferação de escolas por todo o país, principalmente faculdades e cursos de pós-graduação. Esse fato é positivo, pois gera mais oportunidades para o aperfeiçoamento da mão-de-obra, entretanto é necessária uma forte fiscalização do Ministério da Educação para garantir um ensino de boa qualidade.
Aos professores cabe a responsabilidade de aperfeiçoar o ensino e motivar nossos alunos na busca da excelência profissional e ética, só assim a sociedade poder�� crescer gerando mais empregos e atraindo mais investimentos para que as pessoas possam ter uma qualidade de vida melhor, mesmo se o governo não tomar uma atitude mais agressiva na educação.